Um homem que não conseguia distinguir os limites entre a vida e a poesia e acreditava que “a vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la". Essa é a minha leitura de Gabriel José García Márquez (Gabo). Leitura que faço a partir de sua obra, é claro, porque infelizmente não tive o prazer de conhecê-lo.
Curioso é que poucos dias antes de sua morte (17/04/2014), sentada com amigos em um bar, surgiu aquela famosa brincadeira: “Com quem está permitido 'trair' o seu parceiro?” Lançaram nomes como os dos atores Monica Bellucci e George Clooney e até de alguns mais mortais. A minha escolha foi Gabo. Claro que imediatamente vieram as piadas: “mas como? Ele tem 87 anos! Nada iria acontecer!” Então, eu retruquei: “nada físico iria acontecer, mas imaginem o tamanho da minha felicidade se um dia conseguisse olhar através daqueles olhos cheios de histórias para contar, um verdadeiro portal para o imaginário. Nossa...”.
Não houve tempo, partiu! Nem uma olhadinha de longe sequer... Mas a minha admiração continua e, para a nossa sorte, a obra desse homem que plasmou em letras realidades mágicas de mundos possíveis e impossíveis é imortal.
Após a sua morte, surgiram milhões de admiradores de Gabriel García Marquez, mas devo dizer que, na minha vida, ele sempre teve um significado especial. Não só como escritor laureado com o Prêmio Internacional Neustadt de Literatura em 1972 e o Nobel de Literatura de 1982, mas também como jornalista e roteirista. Por sua causa, aos 20 anos, eu até pensei em estudar em Cuba, na Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Banos (EICTV), que teve apoio decisivo e incondicional do escritor colombiano. Não pude realizar esse sonho, mas, resignada, me contentei em ler “Como contar um conto”, transcrição de uma oficina de roteiro ministrada por ele na escola cubana.
Nesse livro, Gabriel Garcia Márquez escreve mais uma de tantas lições: “A gente conhece um bom escritor não tanto pelo o que ele publica, mas pelo o que ele joga no lixo. Os outros não ficam sabendo, mas o escritor sim: ele sabe o que joga fora, o que vai deixando de lado e o que vai aproveitando”. Para mim, essa frase vale para a escrita e, sobretudo, para a vida, afinal viver não é isso? Uma sucessão de experiências jogadas fora para que a gente vá se aprimorando e possa se tornar melhor, possa distinguir com mais sabedoria o que deve ficar no lixo e o que pode ser aproveitado.
Enfim, é por isso que não poderia deixar de prestar uma humilde homenagem, ainda que tardia, para Gabriel García Márquez. Esse homem que não conheci pessoalmente, mas que fez tanto parte da minha vida. Ele, que não se despiu em roupas, mas o fez em palavras!
Leia mais: Minhas tardes com gabo
"Todo mundo quer viver em cima da montanha,
sem saber que a verdadeira felicidade está
na forma de subir a escarpada".
Gabriel García Marquez
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sem saber que a verdadeira felicidade está
na forma de subir a escarpada".
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